Incapaz de lidar com a ausência.
Sempre fui. Percebo a coisa como quase patológica: a ter três borrachas (nem as uso mais), cinco pedras reserva de isqueiro (quanto tempo dura uma pedra de isqueiro!), desodorantes e perfumes iguais (o medo de sair de catálogo), caixas de incensos repetidos, tubos de tinta de caneta, como se eu não pudesse usar outra qualquer enquanto não substituísse a tinta daquela. Como se eu não conseguisse mais ser eu mesma, e essas coisas são tão simples e descartáveis. O dia em que a fábrica do sabonete mudou de dono minha mãe, me conhecendo, já me trouxe oito sabonetes iguais, do estoque do mercadinho, caso parassem de fabricar.
E o medo de estragar um livro e a editora não imprimir mais exemplares por vários anos. Confesso que tenho livros repetidos.
A verdade é que eu não consigo lidar com um possível provável próximo fim das coisas, tamanha insegurança e desespero de incompletude; aquele frio atômico na espinha do viciado quando sacode a caixinha já vazia do remédio.
Perdendo um pedacinho eu sei que me desmancho no chão
Isso do que é material e consumível, isso do que eu poderia - sim - viver sem ou restituir fácil alguns dias depois (ainda que passados com certa dificuldade e insônia - a verdade é que tenho insônia até na véspera de comprar a coisa-reserva).
Agora que dizer do que é insubstituível, do que é irrecuperável, daquilo que estou perdendo neste segundo, das pessoas, dos amores, que dizer disso que tenho cada vez menos porque esgotou-se e não recuperarei mais porque deixará de existir por completo antes de mim, antes de mim!.
que não é medo do fim mas de sobreviver a ele. Existir sem. Amputada. Que é uma palavra muito feia...
"The thought of leaving you - I do not know how." - Chainsling, Pain of Salvation
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quarta-feira, 22 de setembro de 2010
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
diante
"Let me tear myself apart, I need to breathe." - Undertow, Pain of Salvation
01/08/10
Existe, é verdade, o momento em que se é feliz e que se ama. Existem. Mas diante do tempo futuro, diante do passado, daquele dia específico, diante de toda a semana que se anuncia, de toda a vida que se espera, diante de toda saúde que tenho!, de todo potencial, do poder-vir-a-ser e também diante do poder-não-vir-a-ser - não significam mais que uma breve distração, o amor e a felicidade.
A verdade é que já me caí deitada faz tempo, e não na posição de quem descansa ou dorme confortavelmente, nem na posição do morto: resto ao chão na disposição embrulhada e contraída de quem sente dor e caimbra aguda no corpo todo, sobretudo na cabeça e no coração.
Eis a projeção - do quê? Do que poderia ser, dizem, mas que é, na realidade, o que poderia ter sido, dito assim já no pretérito, porque não há mais como recuperar. não há.
Quanto tempo mais?
01/08/10
Existe, é verdade, o momento em que se é feliz e que se ama. Existem. Mas diante do tempo futuro, diante do passado, daquele dia específico, diante de toda a semana que se anuncia, de toda a vida que se espera, diante de toda saúde que tenho!, de todo potencial, do poder-vir-a-ser e também diante do poder-não-vir-a-ser - não significam mais que uma breve distração, o amor e a felicidade.
A verdade é que já me caí deitada faz tempo, e não na posição de quem descansa ou dorme confortavelmente, nem na posição do morto: resto ao chão na disposição embrulhada e contraída de quem sente dor e caimbra aguda no corpo todo, sobretudo na cabeça e no coração.
Eis a projeção - do quê? Do que poderia ser, dizem, mas que é, na realidade, o que poderia ter sido, dito assim já no pretérito, porque não há mais como recuperar. não há.
Quanto tempo mais?
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Sendo
Minha sede é tanta que não sei se leio algo novo ou releio o que esqueci. Reviver ao mesmo tempo em que vivo. Quero ler e reler junto. E de trás pra frente, que reler e reviver são palíndromos. Viver não.
(...viver não.)
Mas esses olhos - essa cabeça! -, de tão cansados que já não me servem mais...
(...viver não.)
Mas esses olhos - essa cabeça! -, de tão cansados que já não me servem mais...
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